Tuffy, um goleiro que não podemos esquecer

Em: Artigos|Futebol

10 set 2009

Dizem que no futebol a posição mais ingrata é a de goleiro. Defender as metas de um time pode ser tão delicado quanto lidar com taxas de juros do banco central, qualquer descuido pode ser catastrófico.

E ser goleiro significa ser um jogador de dois extremos. Uma sequência de defesas espetaculares pode fazer deste um herói, por outro lado se falhar cai em desgraça.

Esta tão instável posição de já revelou no passado inúmeros talentos, tanto ou mais que nos dias de hoje. Vimos pisar nos gramados homens como Gilmar dos Santos Neves, Oberdan Cattani, Manga, Félix e Caxambu, só para citar alguns nomes mais conhecidos. Hoje a geração de goleiros consagrados atende pelos nomes de Rogério Ceni, Marcos e Júlio César, entre outros.

Mas muito antes de todos estes goleiros do passado e do presente sequer pensarem em serem consagrados, um grande jogador de nome e personalidade forte, caráter irrepreensível, e de uma segurança invejável sob as metas já defendia o gol corintiano por aí. Seu nome, Tuffy.

O Histórico:

Tuffy Neujm (ou Neugen como escrevem alguns por ai) , nasceu na cidade de Santos ainda no século XIX em 1898. Apesar de santista não foi no alvinegro praiano que ele começou a jogar bola, e sim na extinta A.A das Palmeiras, aos dezessete anos de idade. Ele ainda passaria por Pelotas, Santos, Sírio-Libanês, Palestra Itália, novamente Santos até chegar em seu grande auge, no Corinthians entre 1928 e 1931.

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Era apelidado pela imprensa e pelos seus adversários de Satanás, pelo seu uniforme negro, suas costeletas e por estar algumas vezes com a barba para fazer. Entre suas inovações foi um dos primeiros da posição a adotar luvas.

O Homem:

Hoje, com a facilidade de informação que temos a nossa disposição, é muito fácil sabermos de tudo que os atletas fazem. Ficamos sabendo de seus hobbies, de seus outros negócios, de suas baladas indevidas e tudo mais. Mas na época em que Tuffy disputava suas partidas isso era muito mais difícil. Fui atrás de alguns fatos curiosos sobre a vida de Tuffy que provavelmente nunca foram colocadas em pauta.

Em outubro de 1931 Tuffy publicou um anúncio de 1/4 de página no jornal “A Gazeta”, um feito bem dispendioso para um jogador de futebol na época. No seu anúncio, um apelo para que dirigentes e esportistas paulistas se unissem para auxiliar o jogador Tatu, que até pouco tempo antes deste anúncio, havia defendido a Portuguesa de Desportos e gravemente doente teve que abandonar definitivamente o futebol, chegando a passar muita necessidade.

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No anúncio, Tuffy com palavras emocionantes conclamava seus colegas a contribuirem com 10$000 (10 contos de Réis) para ajudar Tatu (apelido do atacante Altino Marcondes). A ajuda, após o apelo, foi grande mas Tatu viria a falecer meses depois, no início de 1932.

O Empresário:
Além de talentoso sob as metas, hábil nas palavras e dono de um coração bondoso, Tuffy também era um homem de negócios. Após encerrar sua carreira no Corinthians, foi proprietário do cinema Penha Teatro (alguns sites dizem ele ter sido bilheteiro de um cinema no centro, mas ele foi na realidade dono), vendendo depois , por razão que desconheço, ao Sr Antonio Rego Vieira.

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O Fim:

Em 1935, vitimado por uma pneumonia dupla, Tuffy viria a falecer. Como era desejo seu, foi sepultado com a camisa do Corinthians em seu mausoléu no Cemitério São Paulo em Pinheiros e é lá que está até hoje.

Mas poderia estar melhor, seu túmulo há muito tempo está esquecido e em situação de abandono. Descobri sua “morada definitiva” certo dia do ano passado quando fui a um enterro. O sepultamento foi na mesma rua em que vi uma pilha enorme de sujeira, folhas e alguns restos de vasos plásticos, notei o emblema no uniforme e fui mais perto ver, quando descobri que tratava-se do túmulo de Tuffy.

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Meu pai, já falecido, era corintiano e contava muitas histórias sobre Tuffy e outros ídolos da época como Grané e Del Debbio, então sempre soube de suas façanhas em campo, e ao me deparar com seu túmulo ali, sujo e esquecido fiquei muito emocionado e aborrecido.

Além disso, alguns ornamentos de sua sepultura há muito foram arrancadas. Voltei ali dois dias depois, num sábado, e limpei o local. Porém desde então nada mais foi feito.

Seu túmulo, como puderam ver na imagem acima, é bastante simples e aparentemente ele está ali sozinho. Uma foto sua com o uniforme de goleiro do Corinthians em um lado e duas placas, uma com suas datas de nascimento e morte e outra uma homenagem recebida por ele em 1936 doada por veteranos do futebol uruguaio adornam o mausoléu.

Fotografia: Douglas Nascimento

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Me entristece em ver que quase ninguém se lembra mais deste grande ídolo do futebol brasileiro. Nós não reverenciamos nossos mortos, temos medo e preconceito de ir a um cemitério, quando na verdade ali é um recinto de paz.

O que este homem contribuiu para o futebol alvinegro tornar-se aos 99 anos de existência o gigante que é, pede que seja mais lembrado pelos corintianos. Fazendo uma analogia simples, se o Corinthians fosse uma casa em construção, de nada hoje adiantaria Ronaldo e Chicão fazerem o telhado, se homens como Tuffy Neujm não tivessem antes construido os alicerces.

Visitem Tuffy no Cemitério São Paulo, depositem flores em seu túmulo façam um minuto de silêncio e roguem por sua alma. Onde estiver ele estará torcendo eternamente pelo Corinthians.

16 Comentaram para Tuffy, um goleiro que não podemos esquecer

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Beth Cordeiro

setembro 10th, 2009 em 20:31

Não conhecia, mas já gostei dele. As pessoas parece que tinham mais caráter e firmeza. Muito legal e informativo. Gostei.

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Rafa Gonzalez

setembro 10th, 2009 em 21:18

Sensacional o texto! Fiquei emocionado com a história desse grande homem e grande corintiano. O futebol moderno não conta mais histórias de hombridade como esta.

Um Abraço.

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MAU

setembro 10th, 2009 em 22:17

Eae!
Parabéns pelo blog!
Eu escrevo o http://www.asmilcamisas.wordpress.com
E a Lusa?? Sobe?
Abraços

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Kadj Oman

setembro 11th, 2009 em 09:20

SENSACIONAL.

Texto que merece ser divulgado aos quatro ventos.

Republicarei no meu site, o Vai, Lateral: http://vailateral.wordpress.com

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Filipe Gonçalves

setembro 11th, 2009 em 12:39

Caro, parabéns! É disso que o Futebol precisa, e mais ainda, é disso que a Sociedade precisa. Ter memória. Relembrar os grandes homens. Se estamos aqui como estamos, é por eles.

E obrigado pelo post!

Abraço

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Celso Unzelte

setembro 13th, 2009 em 13:11

Douglas,

Parabéns pelo texto, pelas informações, pelo resgate histórico. Na próxima edição do meu “Almanaque do Timão”, o nome de Tuffy já estará grafado da maneira correta: Nejm.

Celso Unzelte, jornalista

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CLAUDIO EDUARDO NOGUEIRA RAMOS

setembro 16th, 2009 em 20:19

PRECISAMOS FAZER MAIS PRESSÕES SOBRE OS DIRIGENTES CORINTIANOS (ATUAIS E OS QUE VIRÃO NO FUTURO) PARA QUE O PASSADO SEJA CONSTANTEMENTE LEMBRADO NO PRESENTE, PARA QUE NO FUTURO O MESMO ESQUECIMENTO DOS GRANDES HOMENS NÃO OCORRA DA MESMA FORMA COM OS QUE VIVEM NA ATUALIDADE. NÃO DEVE SER APENAS NO ANO DO CENTENÁRIO. O APOIO, A SOLIDARIEDADE, O CUIDADO COM OS QUE PASSARAM E CONSTRUÍRAM O NOME CORINTHIANS DEVEM SER CONSTANTES E DEVEM ESTAR FUNDAMENTADOS E CONCRETIZADOS NOS ESTATUTOS DO CLUBE E NA PARTICIPAÇÃO DE NÓS, TORCEDORES!!!!!!

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Rosana (NEJM) Guimarães Saboia

setembro 27th, 2009 em 11:47

Douglas, não pode imaginar da minha alegria,quando ao pesquisar o nome de Tuffy Nejm, o encontrei, há muito tempo atrás procurei, mas sem sucesso.Tio Tuffy era irmão de meu avô Manoel Nejm e tinha mais dois irmãos: Nagib Nejm e Amélia Nejm,naturais de Ponta Grossa-Paraná,acabei de telefonar para a família inteira para dividir a
minha emoção.Moramos em Curitiba,agradecemos a homenagem maravilhosâ feita ao nosso querido ”tio Tuffy”. Adelina Nejm Ribas , Rose Marie Nejm e Fuad Nejm (já falecido) eram sobrinhos de Tuffy e filhos de Manoel Nejm,meu avõ , irmão de Tuffy. Quando li o seu artigo, senti ouvindo meu avô contando a história de seu amado e inesquecível irmão ”Tuffy”,exatamente como você fielmente relatou.
Aceite os mais sinceros e comovidos agradecimentos da família Nejm,por esta homenagem de valor ímpar para com um de seus maiores descendentes, que eternamente estará em nossos corações”Tuffy Nejm”. Através de sua pessoa, tantas outras terão oportunidade de conhecer a trajetória deste grande jogador . Um grande abraço e mais uma vez obrigada!

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Rosana (NEJM) Guimarães Saboia

setembro 27th, 2009 em 12:03

Douglas, não poderia deixar de fazer essa correção:Manoel Nejm e Amélia, irmãos de Tuffy,vieram do Líbano, se estabeleceram em São Paulo e depois sim, fixaram residência em Ponta Grossa.No afã da emoção cometi este lapso.

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Rosana (NEJM) Guimarães Saboia

setembro 27th, 2009 em 12:11

Douglas no afã da emoção,cometi um lapso, os irmãos de Tuffy vieram do Líbano, se estabeleceram em São Paulo e posterior -
mente fixaram residência em Ponta-Grossa-Pr.

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Luiz Cláudio

dezembro 14th, 2009 em 12:35

Muito legal a lembrança de Tuffy. Não conheci sua história, mas pelo jeito, além de uma baita goleiro, era um cavalheiro.
A proposito, conheço o sobrinho dele, Marcelo Nejm (Curitiba), que insiste em jogar na lateral. Depois desse texto vou dar a camisa n.º 1 pra ele.
Abçs

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Marcos Vinicius

fevereiro 20th, 2010 em 18:22

Parabéns pelo texto!

Realmente é muito triste que os grandes jogadores do passado não tenham mais nenhum destaque nem na mídia e por incrível que pareça nem nos clubes onde fizeram história. O grande Tuffy é só um dos exemplos. Quantos craques, verdadeiros ídolos, foram esquecidos pelos clubes? Isso é uma verdadeira ingratidão!

Descanse sempre em paz Tuffy Nejm!

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Eduardo Bastos

maio 1st, 2010 em 00:35

Caro Douglas,

Parabéns pela sua pesquisa e preocupação com a memória, não só do futebol, mas o alerta para com esse tabu tolo, que a maior parte dos nossos compatriotas têm em relação à morte.
Só queria acrescentar que não sou corintiano, porém são-paulino, e apaixonado por futebol como você.
Quero contribuir com uma informação que penso ser válida. A homenagem no túmulo do Tufy pelos veteranos uruguaios, foi pelo fato de que o grande arqueiro alvinegro tomou parte como convidado num jogo de veteranos (apesar de ainda não o ser na época) entre um combinado paulista e a seleção uruguaia que disputou com o Brasil uma final de torneio Sul-americano (A Copa América da época) em 1919, vencida pelo Brasil num jogo eletrizante, disputadíssimo como todos os antigos confrontos entre a celeste olímpica e a nossa seleção foram. Vale dizer que o jogo de 1919 foi vencido pelo Brasil, no estádio das Laranjeiras, gol do grande Fridenreich.

Tenho em minha coleção este jornal histórico “A Gazeta” de 1935, onde o cronista esportivo da época lembra nas deliciosas linhas este saudoso confronto e memorável jornada da seleção brasileira.
Este amistoso entre veteranos também terminou em 1x O para o combinado paulista e o gol também foi de Friedenreich, que apesar de veterano, segundo o cronista esportivo da época, ainda em grande forma. O jogo comemorativo foi no … Parque São Jorge !
Tem fotos, ou como na época chamavam as fotos “vários instantâneos”, inclusive do Tufy fazendo seu tradicional encaixe de bola agachando-se para recolher o couro, como era a expressão futebolística da época.
Um abração e fique com Deus.

Eduardo Bastos.

41 anos, Professor da rede pública estadual de ensino do estado de São Paulo.

Ermelino Matarazzo – São Paulo – SP

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BOZO

maio 4th, 2010 em 15:00

Marcou história também no Fantasma (Operário Ferroviário Esporte Clube), de Ponta Grossa.

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Raul Abduch

maio 9th, 2010 em 00:49

Douglas,

Foi com muito Prazer q encontrei seu Blog Falando sobre Tuffy Nejn. O maior “Goalkepper” do Corinthians . Conhecido como “O Cigano”. Tomo a liberdade de lhe enviar um e-mail contando uma historia que pode acrecentar alguns fatos em sua pesquisa. Incluo no email fotos dos times de 1928 e 1930. Vc está de Parabéns pelo seu resgate da Historia de nosso Futebol
.
Um Abraço,

Raul Abduch.

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Marcelo

junho 3rd, 2010 em 11:35

Prezado Douglas,

Estou desenvolvendo um artigo sobre Arte Tumular, e já me transformei em um frequentador do cemitério de São Paulo, onde esta enterrado Tuffy Neujm. Embora corintiano, não conhecia a história dele no time, não por desinteresse meu, mas infelizmente pelo descaso do próprio clube de não evidenciar a história de seus jogadores. Eu não sei a última data de sua visita ao tumulo, mas recentemente estive pesquisando algumas obras e passei em frente ao tumulo dele, que me despertou a atenção e trei uma foto para futuramente fazer parte de um trabalho que vou desenvolver sobre o passado do Coritnthians, inclusive tive o prazer de conhecer através de um amigo, outra lenda viva: Luis Carlos, o melhor marcador de Pelé e que participou no jogo que o Corinthians quebrou o tabu de 11 anos sem ganhar do Santos.

Pelo que vi, no seu blog vc recebeu bastante informações de amigos e familiares do Tuffy Neujm, gostaria de pedir sua colaboração dessas informações para enriquecer e homenagear os nomes desses verdadeiros heróis que honraram o manto sagrado do Corinthians.

Parabéns!!!

Marcelo

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Crédito: Lucas Lima (MTV)

Douglas Nascimento, 35 anos, fotógrafo, pesquisador e jornalista. É editor do blog São Paulo Antiga e já foi colunista do jornal MTV na Rua, atualmente também escreve também para o site Macnews Brasil (mais...)

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